Imigrantes Brasileiros nos EUA: Estratégias para Evitar Ação da Imigração e Medo Constante

Imigrantes brasileiros nos EUA adotam medidas para evitar a detenção por agentes da Imigração e Alfândega dos EUA (ICE). Muitos têm deixado de ir ao trabalho e evitado levar os filhos à escola por medo de serem pegos devido à situação irregular no país. Comunidade brasileira utiliza o WhatsApp para alertas em tempo real sobre ações do ICE e busca apoio em organizações sociais.

Por Redação gl - Política
Atualizado em 17/02/2025 às 7:05 pm

Imigrantes Brasileiros nos EUA Relatam Estratégias para Evitar Ação da Imigração

Brasileiros que vivem nos Estados Unidos estão adotando medidas para evitar a detenção por agentes da Imigração e Alfândega dos EUA (ICE). Muitos imigrantes têm deixado de ir ao trabalho e evitado levar os filhos à escola por medo de serem pegos devido à situação irregular no país.

Estratégias de Comunicação e Medo Constante

Os relatos são semelhantes: pessoas evitando sair de casa, crianças faltando à escola e grupos de sentinelas observando a movimentação dos agentes do ICE. “Tem dias que dá uma minimizada na polícia, tem dias que é ‘caô'”, afirmou um imigrante na Flórida, que prefere não ser identificado. Ele utiliza o WhatsApp para se comunicar com outros imigrantes, compartilhando informações em tempo real sobre as ações do ICE.

Trabalhador da construção civil, esse brasileiro tem dois filhos no país e teme ser deportado por estar “sem status”, ou seja, sem permissão legal para permanecer nos EUA. “Já parou [ICE] na frente de um condomínio de um amigo meu e pegou uns dois, três lá”, relatou. “Está fazendo muito medo na gente por aqui. Está todo mundo com medo. Não tem como você andar, muito complicado, muito tenso”, acrescentou.

O maior medo dele é ser separado dos filhos caso seja deportado. “O medo é deixar as crianças para trás. Com quem vão ficar as crianças? São poucas as pessoas que a gente conhece. Se eu for pego, não dá para pedir um americano para pegar”, explicou.

Impacto na Comunidade e Ajuda Financeira

Segundo a Casa Branca, pelo menos 11 mil imigrantes ilegais, incluindo brasileiros, foram presos desde o início do governo de Donald Trump. Os últimos dois voos de repatriados que chegaram ao Brasil somam 199 pessoas.

André Simões, gerente de projetos da Brazilian Worker Center em Boston, relata que a entidade tem recebido muitas ligações com pedidos de ajuda, inclusive financeira. “As pessoas não estão indo trabalhar e quando elas não vão trabalhar — porque a maioria dos trabalhos é por hora — isso afeta bastante toda a comunidade”, explicou. “A comunidade está com muito medo e ficando em casa mesmo. Essa é a primeira medida de proteção, de ficar em casa, não sair”, ressaltou.

O WhatsApp é usado para disparar alertas quando imigrantes avistam agentes do ICE em alguma região. “A comunidade usa muito WhatsApp para se comunicar, então a gente sabe onde tem grupos de brasileiros que moram perto, têm condomínios inteiros e bairros. E o ICE, que é a polícia de imigração, tem estado presente por lá, então ninguém sai de casa”, destacou Simões.

Iniciativas de Educação e Defesa de Direitos

A Brazilian Worker Center, junto com outras organizações especializadas em imigração, realiza sessões informativas denominadas “conheça seus direitos” (em inglês, “know your rights”), para educar os imigrantes sobre como agir em caso de interação com a imigração. Alguns desses encontros contam com a presença de advogados. “A gente tem ido bastante em igreja, tem vários eventos em escola, centros comunitários, on-line. Inclusive, tem vários eventos que a gente tinha que eram presenciais e foram remarcados para o modo on-line, porque as pessoas estão com medo de sair”, explicou Simões.

Durante as reuniões, os imigrantes podem assinar um documento chamado “caregiver update”, que permite que outra pessoa seja responsável por buscar o filho do imigrante na escola. Além disso, há debates sobre a possibilidade de aulas remotas para as crianças. “São justamente esses documentos que ajudam a comunidade a se preparar junto desses eventos que a gente faz”, frisou.

Uma professora brasileira em Massachusetts, que preferiu o anonimato, revelou que as próprias crianças estão com medo. “Eles se sentem com uma liberdade maior de falar comigo, por eu ser imigrante. Então, muitas vezes eles chegam lá e falam: ‘E se a imigração vier aqui? Se o ICE vier aqui? Se me pararem na hora que eu sair do ônibus da escola. Vocês vão me ajudar? O que vocês vão fazer? Então, a gente vê nos olhos das crianças o medo”, disse.

Questões de Segurança e Impactos nas Comunidades

A socióloga brasileira da equipe do Massachusetts Immigrants and Refugees Advocacy Coalition (MIRA) ressaltou a vulnerabilidade de imigrantes recém-chegados aos Estados Unidos. “Na internet, os algoritmos espalham muita informação errada, de coisas que estão acontecendo em outros lugares, como se fossem aqui. E no WhatsApp também. Então isso tem continuado trazendo um medo muito grande, onde os pais não levam os filhos para as escolas, nem para as creches, também evitam de atender as consultas médicas que já estavam planejadas e até mesmo de ir na igreja”, detalhou.

A revogação de uma diretriz de 2021 pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) permitiu que o ICE realizasse prisões em locais antes considerados protegidos, como igrejas, escolas e hospitais. “Infelizmente, uma das ordens executivas derrubou aquela proteção de igrejas ser uma área sensível, era chamada aqui de ‘sensitive locations’, e isso fez com que mais uma camada de medo fosse adicionada para as nossas comunidades. A gente sabe que as igrejas cumprem um papel central aqui na sociabilidade da comunidade. Então, no momento, a gente ainda está atravessando essa fase, está bem difícil”, mencionou a socióloga.

Orientações e Preparações

O advogado Antonio Massa Viana, especialista em direito de imigração em Massachusetts, pondera que os grupos organizados em aplicativos ajudam, mas algumas vezes criam pânico desnecessário, como em uma ocasião em que alertaram sobre drones sobrevoando uma região. “Nesse dia, muitos imigrantes não enviaram seus filhos para a escola”, disse.

Viana relatou que tem feito encontros em igrejas e outras entidades para esclarecer dúvidas, onde muitos pais admitem que têm evitado enviar os filhos para a escola. “Ninguém pode prever se vai ser preso pelo ICE, mas podemos explicar como as pessoas podem se preparar para uma audiência de fiança, podemos orientar as pessoas para indicar com quem vão deixar suas crianças, quem vai cuidar dos bens que deixarem no país”, explicou.

Ele orienta que as pessoas busquem instituições sérias, que compartilham informações corretas, e lembra que nem todas as pessoas estão sujeitas à deportação acelerada, havendo formas de defesa que se aplicam a imigrantes. “Para algumas categorias de imigrantes é permitido apresentação de defesa. Há defesas específicas que se aplicam dependendo da condição em que se encontra no país, os vínculos que têm naquele local”, concluiu Viana.

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